Jogadores precisam receber orientações de cidadania

Atletas são tidos como exemplos persuasivos para jovens das categorias de base
 
Camila Custodio
 
O futebol mais uma vez ocupou lugar de destaque na imprensa mundial e fez com que a sociedade se mobilizasse e principalmente refletisse sobre conceitos como cidadania, justiça, preconceito, inclusão social, ética e democracia. A relação entre torcedor e cidadão nunca esteve tão próxima.


O futebol por ser considerado um fenômeno social sempre descortinou as diversas expressões da questão social presentes no nosso cotidiano e surge aí uma pergunta. Qual o tipo de profissional que os clubes estão formando? Será que vemos no jogador um profissional-cidadão, consciente de sua realidade e de seu papel na sociedade?

Essa discussão é pertinente porque sabemos que o jogador carrega a identificação social de nosso país e os jogadores de futebol no Brasil, na sua esmagadora maioria, vêm de uma realidade social e familiar bastante precária que, não raras vezes, desconhece seus direitos civis, políticos e sociais até porque o Estado não lhes garante o exercício pleno de sua assistência.

As categorias profissionais estão cada vez mais jovens, e um atleta profissional na adolescência ainda não conclui seu processo de formação e, conseqüentemente, esses atletas são tidos como exemplos persuasivos para os demais jovens em formação em outras categorias.

Questionar o tipo de formação que os clubes estão investindo é relevante porque formação não é só aquela que recebemos na família ou na escola, por esse motivo é importante que os clubes invistam em uma formação mais cidadã para esses profissionais. Para que os mesmos não sejam vitimas de um processo de alienação e exclusão que a mercantilização da profissão condiciona.

Os clubes não têm mais espaço para jogadores que tenham uma conduta reprovável extra-campo, mas o que tem sido feito para que tantas ?situações lamentáveis? que envolvem nossos ídolos não se repitam? Para isso, constata-se o papel e a importância dos clubes na formação de jogadores conscientes de sua realidade e de sua função na sociedade, na valorização da qualificação social, que precede a qualificação técnica, e na formação de um profissional cidadão.

O jogador de futebol, antes de ser jogador é cidadão, que vota, tem consciência política, direitos e deveres sociais. O desenvolvimento da cidadania se constrói com a formação do ser social e temos no futebol um campo para o exercício pleno da cidadania, já que ser cidadão implica intervir na realidade em que se vive.

Investir em ações preventivas, educativas, informativas e intensificar essas ações na categoria profissional, é tão importante quanto investir na intensificação da qualificação técnica de um jogador.

É necessário que o conceito de cidadania saia da teoria e seja colocado em prática através de seu exercício constante e diário e para isso são necessárias práticas integradas de toda a equipe para que a conduta cidadã seja vivenciada dentro e fora de campo.

Paulo Freire já afirmava que somente através da consciência os indivíduos podem modificar a sociedade, por isso devemos acreditar no exercício da cidadania como verbo (ação) e não como substantivo (coisa), para que possamos contribuir para que o futebol seja realmente um esporte democrático, influenciando para a construção de uma sociedade melhor e mais justa.